Sexta-feira, 6 de Março de 2009

"Amore in Abstracto" - um poema simples.

 

 

Quero um poema simples.

Porque não me apetece enveredar por grandes filosofias profundas e abstractas.

Mas ainda assim porque me apetece escrever

E porque estou à espera que o chá arrefeça

Um poema simples....

isto é sempre uma grande incógnita nunca planeada para mim. Sei lá o que vai sair disto.

Mais sincera não posso ser.

Mas talvez, um poema simples, em que fale da simplicidade em que me sinto... e da simplicidade de como nos fomos conhecendo, eu e tu, que não vais saber quem és... da simplicidade nunca antes testemunhada, porque comigo é sempre tudo tão agradavelmente complexo... Esqueci-me de colocar aspas entre agradavelmente? Que lapso da ironia...

Mas sabe bem, algo diferente para mais simples. Obrigada por me seres tão sincero e não quereres entrar em jogos. Para quê dificultar ainda mais o que parece ser tão difícil? Para quê prever o futuro e querer a garantia da eternidade?

Pois se a vida é tão mutável e eu sou sempre outro alguém em cada compasso do tempo?

 

Obrigada pelo momento. Por aqui e agora.

Obrigada por não me tomares como um investimento pendente possivelmente a realizar no futuro.

Obrigada por acreditares que o que sentes agora é o suficiente. E depois? Logo se vê. Mas tudo se constrói vivendo, e não racionalizando, que insultuoso!

Obrigada a ti por pensares assim, e acreditares na vida de modo tão romântico, tão simples.

Obrigada por me afastares da realidade por momentos, neste momento, sem receios das consequências futuras e sem receio do mundo real.

Obrigada por sonhares comigo.

É tão simples, não é?

Porque é que outros não o conseguem?

 

Eu quero um poema simples...

em que descrevo-te

em que descrevo-me

a ti, a mim, aos dois

aqui, agora

tiramos uma fotografia de nós

estamos num jardim

 

és tão meigo, doce e gentil

sorris-me um sorriso apaixonado

com os lábios retorcidos e enviesados

os teus olhos reluzem e estão ora ávidos, ora que prestes a adormecer.

Eu mostro-te um sorriso aberto e puxo-te o braço para continuarmos o percurso.

Uma distância entre nós que se encurta com o meu pensamento de ti

e o teu pensamento de mim.

Tempos que passaram e se fundem neste aqui e neste já.

Quando te puxo, prendes-me a ti com o teu outro braço

Será que deveria fugir? O que ganho? O que posso perder?

Espera... e o que ganho em pensar e o que perco em provar? Nada para ambas...

Será que devo perguntar-me 'Porquê?' ou antes, 'Porque não?'

 

Deixo-me ficar no teu enleio. Contemplamo-nos por infinitos segundos de uma dimensão temporal alheia e eterna.

Vejo o vulto da tua mão a aproximar-se e a ascender sobre o meu rosto, acariciando uma madeixa do meu cabelo. Estou constrangida, receosa, palpitante. Mas sobretudo sei que estou a sentir-me mais viva do que me lembro faz tempo.

Como dói viver, como é incómodo sentir. Parece ser, quando não devia, tão confortável quando permanecemos na clausura inebriante que (não) nos protege do mundo real que podemos sofrer. Mas será que custa assim tanto entregarmo-nos?

 

Roças ao de leve a palma da tua mão na minha face, tomando-a depois nas tuas mãos.

Pareces querer-me levitar quando me ergues o rosto para junto do teu. Será que vou ficar sem chão e sem pé se me deixar levantar?

Que se dane. Beijas-me.

 

O Sol vai baixando a guarda.

Em nós escurece e a luz escasseia.

O ar muda e enregelece.

Nos teus olhos permanece o brilho para que te possa encontrar

e indagar se sempre estarás aqui.

 

Não falo de estares comigo ou me teres no colo como aqui, agora.

O mundo transforma-se e eu vou com ele, e moldo-me à intensidade e percursos do vento.

Eu sei que poderei não estar aqui contigo agora, a não ser agora e aqui mesmo. Neste momento, eu te sou.

Mas uma coisa eu sei de sempre e para sempre, e questiono-me se serás assim também: é que nunca te esquecerei.

Eu posso nunca mais te ser, mas irás estar nem que nos mais recônditos abrigos do meu nostálgico pensamento.

Não preciso que te mantenhas apaixonado por este presente que deixará de ser, mas tão somente gostaria de saber se amarás esta memória, bem guardada num pedaço esquecido e prezado de nós.

 

Pois com esta aragem fria que se põe e que me leva daqui, eu sei que não tenho um rumo parado e certo, eu sei que vou vaguear, divagar, devanear por outros mundos e outras almas.

Mas este pôr-do-sol não me permite esquecer jamais o calor que tanto aquece todas estas entranhas de mim e a veia mais escondida, todo este sangue quente que agora me acelera o corpo, que me faz esvair em êxtase...

 

jamais esqueceria o calor do teu amor,

nem que tivesse durado somente um sopro de vento ou um feixe de luz.

 

06/03/09

02H00

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publicado por Strelitzia5 às 12:42
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1 comentário:
De bastarda a 22 de Março de 2009 às 03:22
Simplesmente lindo!

Extraordinário!

Emocionante, sobretudo com a banda sonora que escolhi para ler esta bela escolha de palavras!!

Bastarda, tu nunca deixes de escrever, mesmo quando a tinta parecer falhar, tu agarra um lápis e escreve, simplesmente.

Beijo*


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