Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Pedro Paixão 2

Eu não sei, nem soube nunca ser sem mácula. A inocência não esteve muito tempo comigo. Tudo era véspera de tudo (...)

 

Nunca tive a coragem de crescer abandonando quem fui. Fui acumulando quem sou.

 

Só uma esperança nos permite renascer.

 

Ter a coragem. Ir buscar forças onde não as tenho. Impedir que o terror das horas futuras me paralise. Adivinhar sentido onde menos se encontra. Substituir o medo pelo que quer que seja.

Escrever só para mim. Esquecer os outros. Deitar fora a exaltação estética.

Um único pode valer mais do que uma multidão.

 

A ansiedade é uma corda à volta da garganta. Impede-me os movimentos, prende-me os pensamentos, entrega-me ao abandono. O dia fere. Só a noite, com a sua misericórdia, me traz algum alívio.

 

A poesia está a dar cabo de mim.

 

Os dias avançam para além de qualquer vontade.

 

As coisas não correm como eu queria. Não acontece o que eu esperava. É-me difícil ter mão no que vou sendo. Cresço e vivo e morro a todo o instante. Mas hoje não me revolto. Quando era novo, lembro-me, era uma constante luta com sucessivos desesperos. Hoje o tempo passa por mim com uma tranquilidade constante. Vencido, libertei-me.

 

Demasiada luz cega (...) Do mesmo modo a escuridão completa destrói o contorno simples das coisas.

 

E no entanto existe a vontade. E no entanto existe a esperança.

 

Por isso somos eternos, todos nós, os já mortos e os vivos e os que aí vêm, informes. Não conseguimos resolver o mistério.

 

Por isso qualquer um acredita, tem de acreditar para se levantar da cama onde se encontrou desmaiado, esvaído, inconsciente.

 

Só a vida é.

 

Agora já sei por que vim. Não foi para escrever o meu livro. Vim para ler o teu livro. E então Raquel diz algo inteiramente inesperado.

 

Escrevo para me ausentar de mim. (...) A satisfação em escrever como antídoto para o tormento de procurar escrever de verdade.

 

Não só escrevia o que me acontecia, como me acontecia o que escrevia.

 

Quanto mais se escreve mais vai em volta crescendo a solidão.

 

Começamos sempre sem querer e depois falta-nos a coragem para acabar. Com o escrever, quero dizer. Porque uma palavra pede outra palavra, uma frase outra frase, um mal-entendido um mal-entendido ainda maior. (...) Começamos e depois já não sabemos parar ou não podemos ou não queremos, tanto faz.

 

Escreve, escreve, habitua-te a sair deste mundo, vicia-te nisso, em não estares por aqui (...)

 

A morrer, a morrer de cansaço, exaustos, a morrer de viver.

 

Tínhamos de inventar tudo, imaginar tudo, para escrevermos juntos uma história de amor.

 

Fica decidido que não volto a escrever, que se acabam as histórias de amor, que se acabou de vez por todas com o amor.

Chega de histórias e mais histórias que nunca acabam e não levam a lugar algum, antes pelo contrário fazem-nos sentir cada vez mais perdidos, mais confusos. Que se lixe a literatura e sobretudo a poesia.

 

Há aqui uma contradição irresolúvel. Mas com essas posso eu bem. Com o que eu não posso é com mais histórias que cansam a cabeça e fazem mal ao coração.

 

Escrever faz é aumentar a solidão em que se está. Não faz mais nada senão acumular solidão sobre solidão.

 

No meu fim está o meu começo. Para começar tive de acabar comigo.

 

Não me esquecerei facilmente da primeira vez que a vi. Era ela a entrar na minha vida.

 

Beijámo-nos até perder as forças. Beijámo-nos até desmaiarmos.

 

Ficávamos dias e noites fechados no apartamento dela a jogar xadrez, a ler alto um ao outro passagens de livros, a fazer demoradamente de comer. Entretínhamo-nos um com o outro e fazíamos o amor até nos transformarmos em água.

 

Eu desejava era que aquela situação continuasse só mais um dia, sempre mais um dia, se bem que no fundo, que de mim próprio tentava varrer, soubesse já que era uma situação insustentável.

 

Naquela ilha grega éramos quase um casal como outros. Havia a nossa diferença de idades e a beleza dela que prendiam o olhar a alguns.

 

Corridas as cortinas, deitávamo-nos sobre as camas e ficávamos a olhar-nos frente a frente até o primeiro de nós adormecer brevemente. Acordávamos ao mesmo tempo (...)

 

Estávamos numa ilha sobre a água. Vivíamos uma vida sem rumo.

 

Sentávamo-nos silenciosos de mãos dadas a prescrutar o horizonte.

 

Contávamo-nos uma qualquer peripécia dos injustos dias em que ainda não nos conhecíamos. Era bom vê-la sorrir; era o próprio mundo que sorria.

 

E depois recolhíamo-nos ao quarto para nos entregarmos, escravos dos exigentes jogos do amor.

 

Vivíamos dias perfeitos.

 

Prometemo-nos que voltaríamos ali em pensamento cada vez que as nossas almas se sentissem atribuladas, que aquele seria o nosso secreto lugar de encontro cada vez que nos sentíssemos perdidos.

 

Amei Atenas. Naquele canto da cidade parecíamos protegidos pelos deuses.

 

Tudo aquilo me confundia numa dor indistinguível do prazer.

 

Disse-lhe da minha intenção de mudar de vida. Nada lhe prometi, embora várias coisas pudessem ficar subentendidas.

 

O destino é sempre cruel, escapando por completo à nossa vontade.

 

Naquela noite fizémos o que mais gostávamos, perdermo-nos nos olhos um do outro.

 

Ainda acontece apaixonar-me, mas nunca nada resulta, tudo fica aquém de qualquer coisa e desisto mesmo antes de começar.

 

 

em Quase Gosto da Vida Que Tenho (acabadinho de ler)


publicado por Strelitzia5 às 13:35
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